Aguardo os comentários, viu?!
Obrigado por aqueles que começam a visitar meu "cantinho". Espero publicar mais (em menos tempo!).
Chega de conversa, vamos logo ao que interessa. Lá vai!
O louco escreveu, você lê e comenta. Té mais!
Desassossego
Lembrou-se de quando era uma criança. Naqueles anos tudo o que mais lhe dava prazer era ficar encostado ao peito de seu pai para ouvir histórias. Cada dia uma história diferente. Cada história com seu brilho próprio, cada dia melhor.
— Mãos na cabeça moleque! Cara no chão! Deita aí! Quietinho! — dizia aquela voz grave enquanto apontava a arma para a sua cabeça.
Os dias de chuva eram os melhores! Papai chegava mais cedo do trabalho, mamãe preparava bolinhos e os três sentavam à mesa da cozinha e ficavam ali por horas a fio entretidos em longas conversas e causos de seus pais.
— Cala essa boca! Engole essa merda de choro, seu veadinho! Fala logo, porra! Eu não tenho o dia todo!…
Como era agradável o acordar naquela casa. Mamãe, sempre pontual, acordava pela manhã, preparava o café e colocava a mesa. Papai cantarolava uma canção antiga enquanto tomava seu banho e eu acordava ao som daquela voz de barítono italiano que preenchia toda a casa. Nesses dias eu não conseguia compreender como minha vida era doce.
— Porra! Minha paciência tem limites! Diz logo, seu puto. Você quer levar uma bala na cabeça?!
Era tão bom chegar à casa da escola e encontrar mamãe de braços abertos a minha espera na varanda. Eu almoçava feliz. Ela ficava ao meu lado num zelo contínuo. As tardes passavam em meio a brincadeiras que só terminavam quando papai chegava do trabalho. Ele, ao chegar, beijava a mamãe, cochichava ao seu ouvido algumas palavras que a deixava enrubescida e me abraçava e dizia: te amo. Só depois de muito tempo fui entender o quanto aquilo era importante para mim e para mamãe.
— Digita essa porra aí. Anda, cacete, não tenho o dia inteiro, boneca! É só digitar os números e pronto! Vamos acabar logo com essa porra!
Nossas férias eram as melhores. Todos os anos íamos para a fazenda do meu avô e permanecíamos lá por alguns dias. De manhã bem cedo papai me acordava e saíamos para tirar leite da vaca, pegar alguns ovos e preparávamos um delicioso café para mamãe. A tarde todos ficávamos na cachoeira entre brincadeiras e descanso. Como eu adorava voltar para casa nos ombros de papai e como eram doces as cantigas que mamãe cantava todas as noites a beira da fogueira. Era um tempo que não mais voltaria.
Um tiro. Corri para baixo de uma mesa. Os seguranças conseguiram render três assaltantes e tentavam arrombar a porta que me prendia com aquele invasor que agora mais parecia um monstro, um dragão pronto a cuspir fogo para todos os lados.
— Se você não abrir essa merda de cofre agora eu acabo com sua vida.
2... 5... 8... puta que pariu! Qual é a combinação mesmo?! Ai, meu Deus! Respira... respira... calma.... 9... 7... 1.
O animal se jogou sobre as notas que estavam dentro do cofre e alucinado pegava o dinheiro. Agarrou-me pelos cabelos, mais uma vez colocou a arma na minha cabeça para tentar sair do cativeiro improvisado que criou.
Ao sair da sala a última imagem que lembro é a foto de papai comigo e mamãe que guardo sobre minha mesa. Meus olhos escureceram e tudo ao meu redor desapareceu. Acordei três dias depois numa sala toda branca. Ao olhar para os lados não consegui definir nada, nem mesmo quem era eu. Só sentia um gosto amargo em minha boca, o corpo cansado e um tanto machucado.
— Ei! Estou contigo, não se preocupe… tudo vai ficar bem!
Eu ouvia aquela voz familiar, mas não conseguia definir quem falava comigo. Olhei para o lado e me deparei com um espelho e nele vi minha imagem refletida.
— Não se preocupe! Eu estou contigo! Relaxe!
Olhei para o outro lado e não pude me conter. As lágrimas pularam de meus olhos ao ver papai e mamãe ao meu lado, como no tempo que era criança.
Hoje ele não é mais o mesmo. A voz de barítono italiano quase se perdeu no tempo, a vitalidade que sempre teve é mínima e seus cabelos perderam toda a cor. Mamãe se tornou uma senhorinha simpática de rosto redondo e vermelho, óculos de aros finos e o mesmo zelo de sempre.
Mais uma vez me senti uma criança e consegui encontrar descanso ao lado dos meus heróis: papai e mamãe.
Estêvão Cruz, 28/1/08.
Palavrear
bocas
loucas
silenciam
palavras
nunca ditas
num espaço de segundos
na tentativa do erro
flui a redenção
de um pedaço de papel
ou de um pedaço de pão
a mesma boca que fala
ladra
xinga
come
e a mesma que beija
lambe
berra
cala
que nos separa
do mundo
e do não
palavras
são apenas palavras
mas podem ser pedras
que ferem a alma
da cândida criatura
entregue a ilusão
presa ao silêncio
muda na razão
palavreando o mundo
verbalizando a emoção
sentido e razão
me entrego às palavras
faço delas minha casa
cama
cobertor
teto
chão
pão
vida
expressão
sigo na vida
contente
sorridente
presente
aqui
ou não
Estêvão Cruz, 28/1/08

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